Espécie de Ameriquinha do Rio Grande do Sul, ele é "o mais simpático" e "o mais querido" de todos os torcedores do Estado, que o chamam de Zequinha. Na primeira divisão desde 1999, fez bonito este ano, terminando o Gauchão em quarto lugar. Mas seu melhor resultado ainda é a Copa Governador do Estado de 1971. O Esporte Clube São José de Porto Alegre ostenta, porém, um tÃtulo que nenhum outro jamais terá. Está registrado e sacramentado nos arquivos da Fifa: foi o primeiro time do mundo a pegar um avião para ir jogar uma partida. Aconteceu em 5 de junho de 1927 e o trajeto de 250 quilômetros Porto Alegre/Pelotas levou duas horas e meia a bordo do único aparelho da Varig na época, um hidroavião Dornier Wal, fabricado na Alemanha e batizado aqui de Atlântico.
A aventura aérea começou na verdade um mês antes dentro de um bonde, durante uma conversa do diretor de futebol Edgar Vielitz com o secretário Moisés Antunes da Silva. Os dois voltavam de um jogo perdido por 3x1 contra o Fuss Ball Club Porto Alegre, na Chácara das Camélias, quando surgiu a idéia: e se inovassem na próxima rodada do estadual? Não se sabe se a intenção era dar mais conforto aos atletas ou uma agitada no campeonato. A segunda opção é a mais provável porque o adversário em questão, o Pelotas, também aprovou, a ponto de bancar as despesas com a viagem e a hospedagem da delegação. Quem não deve ter gostado da novidade foi o goleiro Alberto Moreira Hausen, o Bagre, que fez a histórica viagem muito mal acomodado no porão, no meio da bagagem.
Acontece que, apesar de considerado um dos mais seguros e elegantes aviões do tipo, o Atlântico não estava preparado para transportar um time inteiro. Só havia nove lugares para passageiros e o peso precisava ser muito bem controlado, caso contrário, os dois motores não davam conta. Controlado mesmo. Uma semana antes da viagem a Varig pediu uma relação com o peso de cada um dos membros da equipe. Feitas as contas, verificou-se que daria para levar o chefe da delegação, o tesoureiro, oito jogadores e até o pai do técnico -- este último, também junto com a bagagem. Quanto ao secretário do São José e os outros três jogadores, viajaram "à moda antiga": de vapor e com dois dias de antecedência.
O domingo 5 de junho amanheceu gelado, e quando os passageiros apareceram abrigados dentro de pesados casacões, o comandante Rodolfo Cramer ficou preocupado. A temperatura de dez graus lá fora representava, dentro do avião, alguns quilos a mais que não estavam no programa. Na foto histórica que o presidente do clube, Waldemar Zapp, mandou fazer antes da partida, o grupo de pioneiros não parece saber que alguma coisa poderia sair errada. Provavelmente, só perceberam depois que a segunda tentativa de decolagem precisou ser abortada. Finalmente, às 10h15, o Atlântico prefixo P-BAAA levantou vôo do aeroporto fluvial da Ilha Grande dos Marinheiros.
Fundado em 24 de maio de 1913 por alunos do Colégio São José, o futuro campeão gaúcho de popularidade também penou para decolar em campo. Contando a princÃpio com pouco mais do que o apoio entusiasmado de um professor (o Irmão Constantino Emanuel), os próprios jogadores tiveram de comprar os uniformes e contribuir com 500 réis mensais para manter o sonho. Bons adversários também eram difÃceis de conseguir. Ainda assim, a estréia aconteceu menos de um mês depois (2x0 no Hilsfverein) e o segundo jogo terminou em goleada de 4x0 na equipe do Colégio Rosário. Neste, a maior dificuldade foi a incompetência do juiz. O homem não entendia nada das regras e os capitães dos dois times resolveram substituÃ-lo. Grato pela oportunidade, o juiz substituto depois pagou uma rodada de cerveja para os atletas.
Durante um ano depois de se filiar à Associação Porto-Alegrense de Futebol, o São José mais treinou do que jogou, preparando-se para participar finalmente do campeonato estadual de 1914. Sua história começaria oficialmente em 30 de agosto, com uma vitória de 4x0 no Fuss Ball Frisch Auf na casa do adversário. Em 20 de setembro, debaixo de uma chuvarada, perderia para o Grêmio pelo mesmo placar. E também não se daria bem na primeira excursão – de trem – a Canoas: o forte Canoense ganhou com facilidade por 3x1.
Hoje com cerca de dois mil sócios, o Esporte Clube São José começou a decolar com o vice-campeonato da Cidade de Porto Alegre em 1937 e com a inauguração da sede própria, o Estádio Passo D'Areia, em 24 de maio de 1940. As antigas arquibancadas de madeira não existem mais, substituÃdas por três estruturas modernas e totalmente cobertas com espaço para cerca de 10 000 espectadores. É na verdade um dos mais bem aparelhados clubes gaúchos, em grande parte porque em seus 97 anos de atividade a ousadia do azul e branco não se limitou a ser o primeiro a embarcar num avião. No final dos anos 60, por exemplo, uma fusão com o Clube de Regatas Almirante Barroso fortaleceu o time, que ficou conhecido como Zé Barroso, depois simplesmente Zequinha, e ganhou o tal troféu que é seu maior orgulho, a Copa Governador do Estado de 1971.
A parceria com grandes empresas como Tintas Renner, Totobola, Multison e Squema Sports e o aluguel do complexo esportivo do Passo D'Areia garantiram recursos para outros grandes vôos. Um ousado lance de marketing foi a contratação em 1998 do centroavante Careca (aquele mesmo, ex-Guarani, São Paulo, Napoli, Seleção Brasileira) para alguns jogos do Gauchão. Em 2007, a grande notÃcia foi a chegada do goleiro Danrlei (Ãdolo do Grêmio) e em 2008, a do atacante Fabiano que era do Internacional. Isto sem falar de LuÃs Carlos Winck (ex-Grêmio, Inter e Vasco) que há 12 anos começou a carreira de técnico no Zequinha e voltou em junho deste ano para um time que hoje é o 244o no ranking da CBF e o 18o no do Campeonato Gaúcho, além de ter no endiabrado Jefferson o artilheiro da temporada 2010, com 13 gols.
Há 83 anos, o time de meninos do colégio de padres garantiu um lugar na história do futebol ao entrar naquele hidroavião. Só voltaria a voar em 1959 para jogar contra o 14 de Julho em Passo Fundo. Então, já era um vencedor pelo simples fato de continuar existindo, pois nesse meio tempo dezenas de outros pequenos sonhadores tinham nascido e morrido praticamente sem deixar lembrança. Quanto ao Zequinha, agora existem dois em Porto Alegre: "o mais querido" propriamente dito e a rua Esporte Clube São José, uma homenagem da prefeitura da capital.
Já o destino do Atlântico foi inglório. Só pode ser visto em raras fotos, pois em vez de ir para um museu, acabou desmontado e vendido como sucata.
Ah, sim... no tal jogo contra o Pelotas em 5 de junho de 1927 deu empate: 2 x 2.
O HINO DO DESTEMIDO
Autor: Antônio Guaglianoni
Cor do céu clube alvi-azul
São José de tradição
Mais simpático do Sul
Resplandente pavilhão
Quem não sente o teu ardor
Como um todo sempre unido
Frente ao forte contendor
Luta bravo e destemido
Nasceu nacionalista
Sagrando nobre história
Na senda da conquista
Candente busca a glória
Zequinha traz um fado
Ardente e varonil
De honrar o seu passado
No esporte do Brasil
O CRIADOR DO ATLÂNTICO
Especialista em estruturas metálicas, o alemão Claude Dornier (1884 – 1969) foi o engenheiro que projetou o hidroavião Wal escolhido pela Varig para inaugurar seus vôos comerciais fazendo a rota Porto Alegre/Pelotas/Rio Grande em fevereiro de 1927. Dornier era o homem de confiança do conde Ferdinand Graf von Zeppelin, que o contratou em 1910 para checar os desenhos e os cálculos dos dirigÃveis que fabricava e também com a tarefa de desenvolver um modelo vip com corpo de metal para viagens transatlânticas.
A Primeira Guerra Mundial atrapalhou os planos dos dois ao mudar as prioridades. Os mais de 100 aparelhos que saÃram da fábrica de Friedrichshafen acabaram sendo usados para transportar bombas em vez de passageiros e atacar Londres e Paris.
Derrotada, a Alemanha foi proibida de construir aviões militares, o que obrigou von Zeppelin a transferir os negócios para a SuÃça.
Seu engenheiro, no entanto, ficou em Friedrichshafen, onde fundou a Dornier Metallbauten e se dedicou a princÃpio a projetar aparelhos com pequena autonomia para o transporte de poucos passageiros e/ou carga. Como o nosso Atlântico, um hidroavião bote mercante, no de série 34, monoplano, semi-metálico, com dois motores Rolls-Royce tipo Eagle de 360 hp, hélices quadripás, capacidade para três tripulantes e nove passageiros, raio de ação de 1 000km e velocidade máxima de 180km/h, fabricado em 1925. Ufa!
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