Por onde passa, ele é chamado de Excelência, em respeito ao cargo de embaixador itinerante de seu país e da Unicef. Mas Majestade lhe cairia bem melhor. Monsieur Albert Roger Mooh Miller, que brilhou nos campos como Roger Milla, foi considerado o melhor jogador africano do século 20 e o grande responsável por colocar no mapa do futebol mundial a até então inexpressiva República de Camarões. Liderando o ataque, levou os "leões indomáveis" a três Copas e virou uma lenda porque começou a fazer tudo isso aos 30 anos, idade em que outras "feras" costumam estar perdendo o fôlego e a fome de gols.
A intimidade de Milla com a bola já era grande aos 11 anos, quando a dominava com os pés descalços e fazia miséria nos campos empoeirados das várias cidadezinhas ao longo da estrada de ferro onde o pai trabalhava. Era inevitável ganhar o apelido de seu ídolo e inspirador, Pelé, que vira jogar em Camarões durante uma excursão do Santos. Vibrava com a comparação, mas, como estava decidido a dedicar a vida ao futebol, percebeu a importância de ter um nome e uma identidade africanos. Assim, o Miller virou Milla e, em 1965, o garoto de 13 anos estreou no modesto Eclair de Douala. Logo atraiu a atenção de um grande clube, o Léopards, no qual se tornaria bicampeão camaronês (em 1972 e 73), e aos 22 anos estava de volta à capital (Yaoundé, onde nasceu) como titular do Tonnerre Club. Foram quatro temporadas de sucessos – como a Copa dos Campeões da África, em 75, e a Bola de Ouro de melhor jogador do continente, em 76 – que fizeram dele um craque cobiçado.
Um ano depois, Milla chegava à França como um conquistador vindo da ex-colônia para fazer e acontecer no Valenciennes. As coisas, porém, não saíram como esperava. Contusões, problemas de relacionamento e o fato de jamais ter visto a cor do prometido salário milionário mantiveram a "grande promessa africana" no banco a maior parte do tempo, com 500 dólares mensais no bolso e imenso ressentimento no coração. A transferência para o Monaco em nada melhorou sua imagem ou auto-estima. Passou apenas um ano no clube, fazendo míseros dois gols; bem verdade que foi campeão francês, mas sem participar de quase nada, era um título que não contava. Tinha a sensação, como confessou mais tade, de que ninguém confiava nele. Com exceção do pequeno Bastia, da Córsega, que em 1980 lhe entregou o comando do ataque e recebeu em troca a Copa da França de 81, desta vez com direito a gol de Milla na final sobre o poderoso Saint-Etienne de Michel Platini.
Em casa, ninguém nunca duvidou do craque. Era o número 9 que Camarões queria para tentar chegar pela primeira vez a uma Copa do Mundo. Com seis gols desse já veterano, a classificação foi garantida. Se na Espanha o time não brilhou, feio também não fez: voltou invicto, com três empates em três jogos – inclusive contra a Itália, que seria a campeã. Quanto a Roger Milla, teoricamente quase em fim de carreira, voou para a França, onde ajudou o St. Étienne e o Montpellier a voltarem para a primeira divisão. Encontrou tempo também para levar seu país a finalista (1986) e vencedor (1988) da Copa das Nações Africanas. Considerando sua missão cumprida, partiu para uma semi-aposentadoria nas Ilhas Reunião, no Oceano Índico, jogando pelo Saint-Perroise – que, só para variar, com ele foi campeão em 1990.
Seria uma despedida um tanto melancólica para o craque de 38 anos, se o amigo de infância, ex-companheiro de peladas e então presidente de Camarões, Paul Biya, não interferisse. "Nem em sonhos" esperava receber aquele telefonema no começo de abril com um pedido-convocação para voltar à seleção. Camarões tinha conseguido a classificação para a Copa, mas era impensável embarcar para a Itália sem Roger Milla. Já estava tudo acertado com o técnico Valeri Nepomnyashchi: para poupar o veterano, ele só entraria no segundo tempo. O que ninguém esperava era que o velho leão mostrasse em campo a antiga ferocidade.
Em 8 de julho de 1990, no Giuseppe Meazza, Milla "renasceu" para o futebol. Era o jogo inaugural contra a campeã, Argentina, que se tornaria uma das maiores zebras dos mundiais. Depois de Kana-Biyik ser expulso aos 61 minutos, seu irmão Omam-Biyik fez 1 a 0 de cabeça aos 67 e Roger Milla entrou aos 69 para ajudar a garotada a segurar o placar. Mas, de repente, os africanos pareciam ser 20 em campo. Quase fizeram o segundo gol, quando ele "comeu" Calderón no círculo central e disparou para a área argentina, driblando quem apareceu pela frente e dando um passe na medida para Omam-Biyik. Maradona, Caniggia, Burruchaga e companhia respiraram aliviados por perderem de pouco.
O adversário seguinte, a Romênia de Popescu, Hagi e Lacatus, foi ainda mais fácil de bater: 2 a 1. Dois gols de Milla, que fez tudo a que tinha direito; dividiu com a zaga, driblou o goleiro Silvio Lung, deu piques, enganou adversários com toques rápidos de esquerda, fuzilou de direita no ângulo. Os colombianos, próximos a enfrentar os "leões indomáveis", deveriam ter colocado as barbas de molho. Principalmente o bom mas muito doido goleiro Higuita. Dez minutos depois de levar o primeiro, cara a cara, aos 31 do segundo tempo, caiu na besteira de tentar driblar o 9 camaronês na intermediária. Anos mais tarde, Milla contou que sabia exatamente o que fazer para desmoralizar o atrevido, alertado que foi por Valderrama na época em que jogaram no Montpellier. O então capitão colombiano deve ter se arrependido amargamente, porque Roger passou de passagem por Higuita, rolou a bola para o gol vazio e foi comemorar pela segunda vez junto da bandeirinha de escanteio dançando um samba "africanizado" que se tornaria sua marca registrada.
Camarões acabava de conseguir o feito inédito de se classificar para as quartas-de-final da Copa. Perderia o jogo decisivo contra a Inglaterra, 3 a 2 na prorrogação. Milla considera esta partida a melhor do Mundial de 90 e credita a derrota à correria desenfreada e aos desesperadores ziguezagues de Gascoigne: "Foi ele que nos arruinou". Mas saiu de campo feliz, porque tinham deixado "o mundo inteiro de boca aberta". A maior surpresa, claro, foi seu desempenho, que o jornal Le Monde classificou como a mais espetacular volta da história do futebol.
Não seria, porém, a última página da saga de Roger Milla. Ele ainda jogaria a Copa de 94, tornando-se o único africano a participar de três mundiais. Não foi um desempenho à altura dos leões. A seleção caiu ainda na primeira fase e ele só fez um gol (na derrota de 6 a 1 para a Rússia). O suficiente para significar mais uma vitória pessoal, pois bateu dois recordes: é o mais velho atleta não só a disputar a competição como a marcar. Ao chutar a bola que o goleiro Stanislav Cherchesov não conseguiu defender, tinha exatos 42 anos e 39 dias. Ninguém, portanto, tem mais autoridade para declarar: "Jogar futebol não é questăo de idade, mas de inteligência e personalidade. E tudo está muito claro dentro de minha cabeça".
Ídolo tanto em Camarões quanto em Montpellier (onde foi treinador das equipes de base até 2001), é o único jogador do país na lista da Fifa dos 100 melhores de todos os tempos; entrou também na relação de Pelé dos 125 super-craques e ostenta, desde 2006, o título de Cavaleiro da Legião de Honra. Um ano antes, havia criado a Coeur d'Afrique Solidarité, fundação que ajuda crianças carentes e/ou com Aids, ex-jogadores, pigmeus e projetos educacionais. No escritório, em Yaoundé, guarda os troféus, ao lado de fotos suas com admiradores como Lionel Richie, James Brown, Stevie Wonder, Franz Beckenbauer, Michel Platini e o presidente francês Jacques Chirac.
Não é homem de luxos (a não ser pelo Jaguar prateado e a mobília barroca), é homem de luta, ou seu maior ídolo não seria Muhammad Ali. Se fosse 20 anos mais moço, estaria certamente entre os milionários do futebol. Como ele mesmo garante, sem um pingo de falsa modéstia: "Não sei se ganharia tanto quanto Ronaldo, mas ganharia dele no prêmio de melhor do mundo. Há jogadores hoje em dia que, embora tenham salários de milhões e milhões, nunca farão o que eu fiz pelo futebol, nunca realizarão o que eu realizei. E isso me basta".
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| O último jogo de Milla em uma Copa do Mundo, em 1994. Camarões perdeu de 6 x 1 da Rússia de Salenko, mas ele fez o gol e se tornou o mais velho jogador a marcar em um Mundial. |
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| Milla 'na estica' durante o sorteio dos grupos da Copa da África do Sul, em 2009. |
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| Olha o Higuita, goleiro colombiano, perdendo a bola e entregando o jogo! Depois da vitória, os leões indomáveis pegariam a Inglaterra – e só sairiam do Mundial por causa de dois pênaltis bobos, um deles na prorrogação. |
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| Milla com o arcebispo sulafricano Desmond Tutu, em foto de 2004. |
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