histÓrias do futebol :: uma noite mais que especial

Quem acha que as maiores lambanças de José Roberto Wright ao microfone são cometidas hoje, como comentarista de arbitragem, certamente não conhece esta história do tempo em que ele ainda apitava.

O ano era 1982. Flamengo e Vasco decidiam a Taça Guanabara, equivalente ao primeiro turno do Campeonato Carioca, que valia também uma das vagas no triangular decisivo do próprio estadual daquela temporada. Típico jogo capaz de parar o país, e justamente por isso os editores Fernando Guimarães e Luís Antônio Nascimento, da Rede Globo, tiveram uma ideia brilhante do ponto de vista jornalístico: esconder um microfone sem fio no uniforme do árbitro, com a autorização do mesmo, para depois colocar a gravação no ar. "Quando fui convidado, meu pensamento inicial foi mostrar como era difícil administrar uma partida de futebol com jogadores de grande peso", defende-se Wright em um vídeo que pode ser visto no endereço http://vodpod.com/watch/917319-wright-e-o-polmico-vasco-x-flamengo-do-microfone-82.

Deu o maior bafafá. Já na sexta-feira, na noite seguinte ao jogo, o Jornal Nacional antecipou trechos da reportagem, guardada para ser exibida na íntegra no programa Esporte Espetacular, que foi ao ar na manhã do sábado. No domingo, o Jornal do Brasil publicou o título "Watergate no futebol. Wright usa microfone". O Flamengo pediu a suspensão do juiz por um período de 180 a 360 dias. O Vasco, a anulação da própria partida, por "quebra do sigilo da súmula". Para o então ídolo vascaíno Roberto Dinamite, "os jogadores foram usados" e "o Vasco foi o maior prejudicado. O Vasco e o Geovani".

O meia vascaíno, de fato, foi a grande vítima do show de grosserias promovido por Wright e captado por seu próprio microfone, como atestam as seguintes frases:

"Cala boca!"

"Vai ganhar o vermelho, rapaz."

"Tá muito folgado."

"Vai jogar tua bola... Vai jogar tua bola... Não tem nada que falar comigo!"

"Ah... Giovanni, vai jogar, vai jogar!"

Já o ídolo flamenguista Zico recebeu um outro tipo de tratamento:

"Zico, por favor, vai jogar, vai jogar... Tranquilo... Tranquilo... Isso..." "Deixa comigo, Zico, deixa comigo."

Eis outros trechos que acabaram atestando o jeito "meigo" com que Wright apitava uma partida de futebol:

"Não se levanta fazendo gesto!"

"Andrade... Mesma coisa do Giovanni, hem? Tô de olho em você e nele. Tô de olho nos dois!"

"Vou avisar os dois capitães: o primeiro que der está na rua, não tem nem amarelo. Para os dois times. Não quero nem conversa."

"Os dois, encostou um no outro, vai pra fora direto. Eu não quero nem saber. E sem conversa quando eu sair, hem?"

O flamenguista Adílio conta que naquela partida o árbitro, que "não era disso", começou a enfatizar demais algumas marcações, e por isso os jogadores logo perceberam que havia algo estranho. Já Wright confessa que tinha como uma de suas maiores preocupações que os jogadores não percebessem o microfone escondido, para não mudarem sua postura em campo.

Julgado pelo tribunal da Federação Carioca, José Roberto Wright foi inicialmente punido, mas recorreu junto ao tribunal da CBF e acabou absolvido por falta de uma proibição específica no Código Brasileiro Disciplinar de Futebol a respeito do uso do microfone escondido. Ah, sim: naquela noite de quinta-feira, 23 de setembro de 1982, no Maracanã, diante de hoje inimagináveis 100.967 pagantes, o Flamengo ganhou por 1 a 0, com um gol de Adílio no último minuto de jogo, e conquistou o pentacampeonato da Taça Guanabara. Mas foi o árbitro que acabou roubando a cena para sempre.


 
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