O honrado fazendeiro Laudelino Tinhorão, coronel da Guarda Nacional, era homem de curso primário completo. Passou a meninice entre a escolinha de dona Técia, no Pilar, e a sacristia da matriz de São Miguel, onde o padre
José Mendonça lhe ensinou a declinar rosa,rosae à custa de algumas flagelações. "Posso ser burro, que é determinação de Deus; mas ignorante,
isso não", vociferava o coronel, quando algum camponês mais atrevido se desculpava pela colheita reles naquele cruel regime da meia e da terça.
"É mais fáci inganá o fute do que o coroné", dizia comadre Jovelina, cozinheira de talento que tinha sido amante do fazendeiro em passados anos. "Séculos", costumava corrigir o velho.
Tinhorão lamentava o trabalho absorvente que lhe havia roubado o tempo. Cedo metera-se pela caatinga, encourado, a caçar o gado arredio da fazenda imensa; dera adeus à escola, à palmatória instrutiva e persuasiva do padre Mendonça, para ajudar o pai na faina diária.
"Não fui bacharel no Recife, mas hei de criar um filho que tire retrato de beca", sonhava o agora fazendeiro rico, muitas vezes pai. Os filhos eram pequenos. O mais moreninho, José Onofre, era moleque esperto e, apesar de meio soslaiado, prometia seguir a carreira que a vida tinha negado ao coronel.
José Onofre foi aluno safado no ginásio Santa Sofia, em Garanhuns, e pior ainda no Colégio Marista de João Pessoa, em meados dos anos trinta. ''A escola é que é ruim, pai; me mande pro Rio de Janeiro que eu volto de lá doutor", desculpava-se e prometia José Onofre ao já desconfiado pai.
E eis que um dia lá se foi o rapaz, a bordo dum navio italiano que fazia a rota de Buenos Aires. Abriu conta no Banco do Brasil, para receber a mesada, e viajou com dois contos de réis das primeiras despesas.
Nunca mais José Onofre apareceu no sertão. Nem escrevia cartas. De vez em quando, um cartão postal do centro do Rio com palavras assim: "É tanto estudo que nem conheço Copacabana. Saudade. Mande dinheiro. José Onofre". O coronel mandava. Um rapaz daquela idade que nem conhecia Copacabana, a "princesinha do mar" dos anos 40! E estava mesmo estudando. Um dia, ia certamente aparecer no mourão da porteira com o diploma na mão, para última alegria de um pai cansado e sonhador.
Um vizinho, Dedé Vasconcelos, esteve no Rio em dezembro de 1947 para comprar um caminhão GMC e voltou contando ao coronel Tinhorão: "Como estuda aquele seu filho, hein, coronel? Estive na pensão onde ele mora, no
Catete, e nem pude ver o menino; só chega de madrugada, passa as noites debruçado nos livros, apesar de ter as paredes do quarto cheias de retratos do time do Flamengo...". O coronel gostou de ouvir aquilo, fez até planos de dar um pulo até o Rio, mas cadê jeito? Tinha a colheita, o gado, e os outros filhos eram um bando de malandros.
No inÃcio de 1949, apareceu a chance. Tinhorão escreveu ao filho dizendo que iria visitá-lo. Levava as saudades de todos, queijo do sertão e um quilo bem pesado de rapadura batida, paixão infantil de• Zé Onofre. Que o filho aguardasse mais notÃcias. Dali a dias chegou um telegrama do universitário com estes dizeres:
"Aguardo suas estruções".
O coronel leu, releu, matutou. Durante três dias o velho remoeu aquelas "estruções". Então chamou o ajudante: "Zé Amaro, pegue o primeiro navio pro Rio e vá buscar aquele animal!", ordenou Tinhorão. E completou, com ódio: "Leve um cabresto para o caso de o cabra oferecer resistência ...".
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