especial :: futebol e arte

Na pintura ou no cinema, a representação visual do futebol é complicada. Talvez pela natureza quântica do jogo, em que a bola é matéria e energia ao mesmo tempo e onde as jogadas sem explicação tecem trajetórias que driblam o olho. Um gol vindo do nada pode surpreender a torcida, distraída com outras coisas, como o placar ou a arbitragem. Há muito o que explorar, mas alguns mestres conseguiram romper vícios da percepção e geraram obras que ficam.

Grandes pintores e artesãos apostaram na percepção inspirada pela memória, como nos quadros de Portinari, Volpi, Fulvio Pennachi ou Sinésio Brandão, que retrataram as peladas do interior e litoral do Brasil. Ou preferiram reproduzir a intensidade do jogo na pose clássica dos jogadores em duas fileiras, uma de pé e outra agachada, como Rubens Gerchamnn, um apaixonado pelo jogo que também fez arte com movimentos primorosos como a bicicleta nos pés de Romário ou Pelé.

A pintura se alimenta muito da percepção formatada na infância, quando o jogo é um conjunto de lances avassaladores. Cinema e televisão procuram ficar à altura dessa riqueza visual, mas nem sempre conseguem. A dificuldade da representação se reflete principalmente no cinema americano, que aborda o soccer, que é como eles chamam o futebol, como se fosse uma correria idêntica ao futebol americano, em que os jogadores avançam por jardas em direção à linha de fundo. Eles não conseguem captar a articulação do jogo. Filmam pessoas avançando desesperadamente para o arco adversário, como se o território palmilhado contasse pontos.

No cinema brasileiro, cometemos algumas gafes, como representar um cracaço por um perna-de-pau em Garrincha, a Estrela Solitária (2003), de Milton Alencar. Mas tivemos Walter Salles e seu primoroso Linha de Passe (2008), em que o ator principal, Vinicius de Oliveira, entende um pouco do riscado e se sai bem. Mas Salles filma mais o entorno, os bastidores, o drama social vinculado ao futebol e não a representação do jogo. Resta a televisão, que em geral é de uma pobreza visual sem fim. Efeitos especiais como vimos na Copa da África (em que a maioria dos jogos não ajudou muito) são exceções. O mais grave das transmissões televisivas é que elas são confundidas com o jogo em si, quando sabemos que é uma edição, uma seleção servida à percepção viciada de espectadores e torcedores.

O futebol só pode se revelar inteiramente pelo talento. É complicado. Todo artista ou cineasta deveria saber que o conflito principal do jogo é a oposição entre a esfera e o retângulo, entre a curva e a linha reta e não a que existe entre times adversários. Tanto é que os atletas costumam trocar de camisa, conforme as conveniências da profissão ou da cartolagem.

A partida é decidida por uma série de combinações entre a trajetória da bola em linha reta (o chute direto), em curva (a folha seca ou o chapéu) e a partir dos ângulos (escanteio, gol na gaveta ou rasteiro no canto). Essa geometria define a matemática superior do futebol, um jogo quântico à mercê das probabilidades. A área é o retângulo que funciona como sombra do arco, ou seja, se a bola fosse o sol colocado atrás da goleira, refletiria no chão as linhas que delimitam a área. É por isso que esse território é do goleiro, por ser uma projeção da sua cidadela. Cabe ao atacante devassá-la desbravando-a pessoalmente ou por eliminação, por meio da bola alta.

O ângulo é uma fonte constante de riqueza visual. Não apenas a gaveta, por onde entram os mais belos gols, mas o canto onde se bate escanteio, e a quina da área, lugar de dúvidas quando pode haver pênalti. São pontos sensíveis do jogo e quanto mais usados, mais beleza transfere ao conflito. Existe a curva perfeita que é pura estratégia bem sucedida, com os passes longos dos antigos Gerson e Zenon ou do Alex que foi para a Turquia.

Outra preciosidade do jogo quântico vista pelo deslumbramento da infância é o que Peticov faz, colocando a bola em linha reta até 80% da trajetória. Aí ela opta pela curva exatamente para ficar fora do alcance do pulo do goleiro. Este, se atira pensando que a bola virá reto, mas sua mão apenas colhe o ar. A divindade desse tipo de gol é a folha seca do mestre Didi, em que a bola tem tudo para se perder na linha de fundo mas faz a curva para cair no ângulo de baixo, oposto, deixando os goleiros paralisados.

A chamada magia do futebol é truque do ilusionismo. Robinho, por exemplo, pedala em cima da bola para ocultar seus verdadeiros propósitos, mascarar a vontade que direciona a jogada, impedir que o adversário decifre o que vai fazer. Isso evita que o outro leia e entenda a sua linguagem (se encararmos o futebol como um acordo de signos articulados). Romário é outro ilusionista perfeito. Uma vez, num campeonato estadual do Rio, ele cumprimentou o goleiro do Madureira, que não deixava passar nada. No minuto seguinte, deixou. Romário tinha conseguido desconcentrar o adversário, emocionado com a homenagem no calor da luta. Coisas que a molecagem da infância pobre ensinou e supera tanto a geometria quanto a geografia, já que na escassez de espaço onde nasceu, Romário formatou sua grande arte.

Pois não importa o tamanho do país. Importa quanto espaço existe nele para se viver. A posse folgada do território por parte do privilégio confinava a maior parte do povo aos limites impostos ao menino Romário. Não se trata de sistemas decimais de metragem. Mas de possibilidades que a rua clandestina, o terreno derrubado para a estrada, o muro que rouba o calçamento oferecem para que o corpo possa driblar o limite e encontrar um caminho na área cercada de zagueiros ferozes.

O gol de bicicleta é outra surpresa da curva. O jogador está de costas para o gol e só poderia chutar, pela lógica, contra o próprio ataque. Mas ele cai com a perna levantada e puxa a bola para dentro do gol. No fundo, o futebol é encaixar a esfera num espaço limitado por linhas retas, uma impossibilidade teórica que só pode ocupar os espíritos livres.

E qual espírito mais livre do que o da criança? Quando só existiam as transmissões de rádio, nossos sentidos precisavam usar a imaginação para completar as jogadas. As imagens vinham mais tarde, trazidas pelos cine-jornais. Víamos então o que tínhamos formatado previamente ouvindo rádio. É mais difícil hoje, quando não há a defasagem entre a transmissão e a imagem. O perigo é a modorra contemplativa que o excesso de oferta na TV gerou em nossa percepção.

O texto, quando encarado como arte, poderia muito ajudar a reencontrar essa emoção de ver algo pela primeira vez. A miopia de Nelson Rodrigues expressa a opção de enxergar diferente, talvez decifrar apenas as linhas que se formam na contenda. Deveríamos seguir esse caminho, resgatar a liberdade do olhar diante do jogo. Ver um gol de maneira diferente poderia ajudar. Um do brasileiro França, por exemplo, ex-São Paulo e que joga no Exterior. Lembro um lance quando estava no futebol alemão. A bola veio do canto, numa altura mínima. França acompanhou a trajetória da bola como um menino que aposta corrida com um carro. Lembrei dos pneus velhos da minha infância, usados para colocar alguém dentro, todo enrodilhado.

O corpo curvado e as pernas que se juntam aos braços o transformam numa parte do pneu. Os outros acompanham para debochar da cara do sujeito. Um deles é França, o menino que segue a bola como se estivesse num outro tempo, quando havia infância. Os gestos dele se parecem com o que vislumbro na minha lembrança.

É uma corridinha típica de garoto do interior. As pernas compridas e magras de França se aceleram como se fosse um Flintstone dando partida no carro com os pés. Há um descompasso entre aquela pressa e a quantidade de espaço palmilhado. Ele corre alguns metros, mas parece que cruzou toda a rua acompanhando seu objeto de desejo. Os braços também se comportam de maneira típica: se encolhem, para economizar vento e criar aceleração. É o que aprendeu, talvez, quando criança, a correr até o fim da rua para ver como o cara saía do pneu, todo tonto. Era então o primeiro a pegar o sujeito para rodopiá-lo ainda mais, pois o engraçado era vê-lo tentar ficar em pé e depois cair.

Todos esperavam o clássico chuveirinho europeu, mas ele estava correndo atrás do pneu, não jogando uma partida de futebol. Seu corpo todo encolhido, do menino que corre, de repente se desenrola. Os pés de Flintstone passam imediatamente para a câmara lenta. O esquerdo serve para dar apoio (ele toca no chão? nunca saberemos) e o direito então consegue pegar a bola meio por baixo, já que ela vinha numa altura mínima. Na hora em que ele bate, já é tarde demais. Os atacantes podem desistir, os zagueiros lamentar. Só o goleiro não quer render-se às evidências, quer saber mais do que artilheiro e atira-se, espichando-se todo.

Mas a bola beijou o véu da noiva, como dizia a crônica esportiva. A comemoração do gol foi reveladora. França imitou o passo em falso de um boneco de mola, tonto, como se tivesse saído de dentro do pneu. Era sua maneira de comemorar. Dizia com isso: meu corpo surpreende, jamais vocês irão me pegar.

A arte da palavra e da imagem acompanha o futebol, tesouro de infinitas possibilidades. A escassez de terrenos baldios, a falta de segurança, as escolinhas especializadas e as transmissões repetitivas sufocam o olhar da infância, mas não o elimina. Os recursos da tecnologia digital ou o salto de qualidade nas artes gráficas impulsionam as representações para a diversidade. Deve-se cuidar da emoção legítima, a que nasce espontaneamente no deslumbramento. Uma triangulação entre talento, memória e formação pode capturar novas cenas. Isso talvez ajude a gerar mais exigências, tanto no jogo quanto na vida.

Nei Duclós é poeta e jornalista e ajudou a fundar o E. Clube Guarani, de Uruguaiana, há 50 anos, quando contava 11 anos de idade


















 
Rubens Gerchman
Rio de Janeiro, 1942
São Paulo, 2008
"Os super-homens" (1965)
Serigrafia sobre papel


Cândido Portinari
Brodowski, 1903
Rio de Janeiro, 1962
"Futebol" (1935)
Tinta a óleo sobre tela de tecido


Claudio Tozzi
São Paulo, 1944
"A dança do futebol" (1997)
Acrílico e óleo sobre tela


Barbara Xumaia
Berlim (Alemanha), 1936
"Futebol na praia" (1965)
Serigrafia sobre papel


Alfredo Volpi
Lucca (Itália), 1896
São Paulo, 1988
"Meninos jogando" (s/d)
Pintura em baixo esmalte sobre azulejo






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