lendas do futebol :: elÍas figueroa

"A área é a minha casa, aqui só entra quem eu quero". Elías Figueroa não falava por falar. Nem por arrogância. Mas porque era a pura verdade. E barrava os "penetras" na porta de casa com a maior elegância, embora também soubesse usar os cotovelos para desencorajar os mais insistentes: em 17 anos de carreira, jamais foi expulso. Com 1,84m de raça e estilo, chegou perto da perfeição. Nenhum outro zagueiro-central foi seis vezes considerado o melhor das Américas e quatro vezes o melhor do mundo. Sem contar as duas vezes em que a crítica esportiva também o escolheu como o melhor de todos. Não admira que na Seleção Sul-americana de todos os tempos a única posição que não ficou com um brasileiro ou com um argentino tenha sido a zaga onde esse chileno de Valparaíso era absoluto.

Merecia de sobra ser chamado de Don Elías, assim como ser idolatrado pela torcida do Internacional, onde já chegou como capitão no final de 1971 e ficou até a conquista do hexacampeonato gaúcho de 1977 – o que significa que venceu todos os títulos estaduais que disputou. Vestindo a camisa colorada, não brilhou apenas na defesa: fez 26 gols em 336 jogos, tornando-se, ao lado de Índio, o segundo zagueiro-artilheiro da história do clube. Mas nem seria preciso tanto. Para a consagração definitiva, bastaria aquela cabeçada fulminante aos 11 minutos do segundo tempo contra o Cruzeiro na final do Campeonato Brasileiro de 1975. A jogada, que aconteceu na única faixa ainda ensolarada do Beira-Rio, ficou conhecida como "O Gol Iluminado" e representou o primeiro título nacional do Inter – que seria bicampeão em 76, outra faixa para a coleção de Figueroa.

Dizia-se com razão que ele era o tipo de jogador que fazia tudo parecer fácil. Poucos sabiam, porém, quanto penou para chegar lá. Elías Ricardo Figueroa Brander nasceu em 25 de outubro de 1946 com uma saúde frágil. Primeiro, problemas respiratórios o impediram de brincar com as outras crianças; passava os dias em casa, chutando uma bola na parede e driblando adversários imaginários. Depois, aos 10 anos, teve poliomielite e passou mais de um ano de cama. Aos 18, sua estréia na zaga do Santiago Wanderers foi o autêntico triunfo da vontade. Passaria pelo modesto Unión La Calera chileno e pelo poderoso Peñarol uruguaio, jogaria três Copas (1966, 74 e 82) e uma única vez na vida seria vaiado. Aconteceu em 26 de janeiro de 1977, em sua despedida do Colorado. Tinha sido vendido ao Palestino do Chile por oito vezes o valor pago pelo Internacional por seu passe e a torcida não se conformava.

De certa forma, ele também não. Voltaria ao Beira-Rio em 1996 como técnico no lugar de Nelsinho Baptista. Na época, o time dava vexame no Campeonato Brasileiro e sob seu comando conquistou 80% dos pontos disputados. Desde então e até hoje, morando em Viña del Mar, manteve os laços com o Brasil e, especialmente, com o Rio Grande do Sul, trabalhando como comentarista da RBS e do SportTV Première, exportando para cá seu vinho Don Elías e dirigindo um posto da Petrobras onde as bandeiras brasileira e gaúcha costumam tremular em dia de jogo da Seleção e do Inter.

Não é difícil entender por que o Internacional escolheu o gigante chileno Figueroa como o primeiro a ser reproduzido em resina ao lançar sua linha retrô de minicraques. O boneco de 18 centímetros é a miniatura de uma paixão mil vezes maior.


 





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