PERFIL :: MÁRIO JORGE LOBO ZAGALLO

Bem que tentei, mas não sei se ele acreditou. Foi em fins de 1985, quando se tinha como certa a eleição de Medrado Dias à presidência da CBF. Medrado presidente, o técnico da seleção brasileira para a próxima Copa do Mundo só podia ser um: ele, Mário Jorge Lobo Zagallo. Na Gávea, após dirigir um treino do Flamengo – e já sabendo que eu iria assumir pela segunda vez a editoria de esportes do Jornal do Brasil –, Zagallo chegou-se ao meu amigo e repórter Antônio Maria Filho e lamentou:

– Mas logo agora?

Tinha lá os seus motivos. Não esquecia que, 15 anos antes, eu fora um de seus críticos mais severos, renitentes e, de certo modo, injustos. Não que haja algum traço de verdade no que um jovem jornalista paulista diz na história da imprensa esportiva brasileira que cometeu há tempos: nem o jornal que eu editava, o Correio da Manhã, torceu contra a seleção brasileira em 1970, nem eu “odiava Zagallo”. Por que diabos o jovem jornalista não se deu ao trabalho e à correção de me ouvir a respeito?

É fato que eu e boa parte da crônica esportiva criticamos Zagallo desde o dia em que ele assumiu o comando da seleção brasileira no lugar de João Saldanha. Quem viveu sabe: eram tempos sinistros, inclusive para o jornalismo, que muitas vezes, não podendo atirar no alvo certo, acertava no que podia. O primeiro equívoco que cometemos foi o de acreditar que a queda de Saldanha tinha sido obra do governo militar. Por conseguinte, também devia ser coisa da ditadura a escolha de Zagallo.

Nem uma coisa nem outra. João caiu por si mesmo. É verdade que o ministro Jarbas Passarinho e o capitão Cláudio Coutinho contribuíram, mas o fato de o técnico da seleção brasileira correr atrás de Yustrich de revólver em punho e depois assinar contrato com jornal, rádio e televisão globais, para se defender das críticas que lhe vinham de São Paulo, pesaram bem mais. João Saldanha estava com os nervos estropiados. Quanto a Zagallo, jamais se interessou por política. Sua única paixão sempre foi o futebol. E o futebol era o Brasil, “a pátria de chuteiras” que ele seguiria cultuando pela vida afora.

Foi assim que a crônica esportiva, na maioria opositora da ditadura, fez de Zagallo seu alvo possível. Principalmente depois que algumas de suas decisões como técnico contrariaram as de Saldanha. Enquanto este armara sua seleção no 4-2-4, Edu como ponta-esquerda ofensivo, Zagallo não abria mão do ponta-esquerda recuado, Paulo César, em quem ele parecia ver uma espécie de prolongamento de sua carreira como jogador. Nós, os de espírito prevenido, começamos a criticá-lo por aí, como se tivesse alguma importância avançar Edu ou recuar Paulo César.

Importância, sim, teve outra decisão de Zagallo, esta um prato feito para os críticos de plantão reforçarmos nossos arsenais: Pelé e Tostão, dizia Zagallo, não podiam jogar juntos, tinham as mesmas características. Logo, um dos dois (naturalmente, Tostão) deveria ficar no banco aplaudindo o outro (naturalmente, Pelé), para que a camisa 9 fosse entregue ao impetuoso Roberto Miranda.

A partir desse detalhe, tudo mais que Zagallo fez na seleção de 1970 foi pelo menos contestado. Mesmo depois de se convencer de que Pelé e Tostão, juntos, eram irresistíveis, e que o Brasil poderia jogar sem ponta-esquerda, avançado ou recuado, já que o camisa 11, o formidável Rivelino, nunca foi ponta na vida.

Zagallo realmente tinha seus motivos, pois só dois anos depois deixei-o em paz. Na época, eu assinava uma coluna meio bissexta no Jornal do Sports, então editado por José Trajano. A partir de uma resposta de Zagallo a um repórter que o chamara de “sortudo” (“No futebol não existe sorte, existe competência”), não perdi a oportunidade quando, após uma goleada sofrida pelo Flamengo que ele dirigia, Zagallo atribuiu o resultado a um dia de azar. E escrevi: “No futebol não existe azar, existe incompetência”.

No treino seguinte do Flamengo, queixando-se de mim a um grupo de repórteres, dois deles tentaram explicar a razão de minhas críticas: tratava-se de campanha comunista para levar João Saldanha de volta à seleção. Resultado: tive de me explicar ao ministro João Lira Filho, irmão do general Lira Tavares, homem de influência sobre a direção do Jornal dos Sports e confesso protetor de Zagallo. Mesmo eu concordando que era hora de deixar Zagallo em paz, o substituto de Trajano na edição do jornal, não por acaso indicado pelo mesmo ministro, aplicou-me um cartão vermelho.

Levei mais de 25 anos até poder escrever com isenção sobre o trabalho de Zagallo na Copa do Mundo de 1970. Ao traçar o perfil de João Saldanha no livro Sobre Nuvens de Fantasia, escrevi: “Zagallo cumpriu competentemente sua missão”. Isso depois de reconhecer que, “com o Saldanha de 1970 e sem o João de 1969 (as eliminatórias da Copa do Mundo), o Brasil não teria trazido do México, e para a sempre, a taça de ouro dos seus sonhos”.

Já então, 1996, estou certo de que Zagallo acreditava que o crítico que tivera em mim já saíra de campo (tivéramos ótimo relacionamento, três anos antes, em Teresópolis, ele como auxiliar-técnico de Carlos Alberto Parreira, eu como repórter na cobertura das eliminatórias para a Copa de 1994). O que Zagallo não sabia – e vai saber agora – é o quanto reconheço nele um dos mais importantes personagens da história do futebol brasileiro. Como jogador e como técnico. Foi há pouco, ao dedilhar estas linhas, que me vi a pensar no quanto acompanhei de perto as seis décadas que Zagallo dedicou ao futebol. Vi-o na ponta-esquerda do juvenil do Flamengo, num Fla-Flu memorável, nas Laranjeiras. Um dia, deixei-o emocionado ao lhe recitar o ataque rubro-negro naquela tarde de sábado: Miguel, Índio, Amarílio, China e ele, Zagallo. E, de quebra, o do Fluminense: Milton Bororó, Vassil, Telê Santana, Zé Henrique e Quincas. O ano? O histórico 1950.

A menção ao ano o fez lembrar que, um mês antes daquele Fla-Flu, como soldado da Polícia do Exército em serviço no Maracanã, sofrera calado, imóvel, sem crer no que via, a derrota do Brasil para o Uruguai na final da Copa do Mundo.

Depois, revi-o incontáveis vezes como titular do Flamengo, do Botafogo, da seleção brasileira, sempre vencendo. Foi o primeiro ponta-esquerda recuado, ou melhor, o primeiro a acrescentar ao papel de atacante o trabalho voluntário de ajudar o setor de apoio, o que fazia menos por opção tática do que por temperamento. Na forma desse ponta-que-arma, modelou-se o futuro técnico.

Zagallo, dizem, sempre foi um homem de sorte, condição que ele reconhece e até mesmo cultiva, seja em sua fidelidade ao número 13, seja descobrindo coincidências em quase tudo. Mas, como a filosofia das arquibancadas ensina, ninguém é campeão fazendo pacto com o azar. Ou talvez essa história de homem de sorte seja apenas um outro modo de vermos o vencedor, sobretudo quando ele não joga no nosso time. Porque hoje – assim como quem se permite discordar de Zagallo mais uma vez – posso dizer que seu caso é muito mais de competência do que de sorte.

Zagallo, o jogador, driblava bem, centrava bem, dono dessas e de outras virtudes técnicas. Não era um goleador, não tinha os lampejos de gênio de Canhoteiro, nem o temível petardo de Pepe, para citar os dois contemporâneos que mais o ameaçaram na seleção brasileira. Mas era de uma eficiência rara. Quem duvidar que veja ou reveja a íntegra da final da Copa do Mundo de 1958, na filmagem abençoadamente pirata de um cineasta japonês. À exceção de Didi, ninguém jogou mais que ele naquele dia. Nem Vavá, nem Pelé, nem Garrincha, por mais decisivos que tenham sido os quatro gols que os três fizeram ou trabalharam (Zagallo, não esqueçamos, também fez o seu). E terá sido por sorte ou por competência que ele formou, com Didi, Nilton Santos e Gilmar, o grupo dos únicos jogadores presentes nas 12 partidas do bicampeonato mundial de 1958 e 1962?

E o técnico? Decerto, outro vencedor. Ele e o kaiser Franz Beckenbauer continuam sendo os únicos campeões mundiais como jogador e como técnico. Uma honra para ambos. Vencedor em clubes e na seleção. Dirigiu equipes campeãs do Botafogo, do Flamengo, do Fluminense, dos Emirados. Na seleção – ainda que eventuais críticos de agora não considerem sua colaboração a Parreira em 1994, muito menos o perdoem pelas derrotas em 1974 e 1998 – Zagallo pode orgulhar-se de ter levantado uma Copa do Mundo e uma Copa América. Foi durante esta última que proferiu uma de suas frases mais citadas, recado aos críticos da vez:

– Vocês vão ter que me engolir!

Críticas procedentes ou não, pois uma e outra hão de cruzar sempre o caminho de um técnico de seleção. Procedentes, como aquela sobre a incompatibilidade entre Tostão e Pelé; ou não, como a que marcou, em 1998, o derradeiro capítulo de sua carreira à frente da seleção. Disseram que não deveria ter escalado Ronaldo na final com a França. Se horas antes Ronaldo sofrera uma convulsão, a ponto de seguir para exames numa clínica de Paris, por que escalá-lo? Acontece que Ronaldo chegou ao vestiário a minutos da partida, avalizado por exames que não detectaram o menor sinal de convulsão. Portanto, liberado pelos médicos, sentindo-se bem, “doido para entrar em campo”. Que técnico, daqui ou lá de fora, diria “não” ao maior jogador do mundo para apostar suas fichas num imprevisível Edmundo?

Torço para que Zagallo tenha se aposentado consciente de que tais coisas sejam mesmo espinhos do ofício de técnico. E que isso permita que suas lembranças do futebol sejam sempre as melhores. Afinal, nenhum outro técnico, sobretudo de seleção brasileira (num país onde todo o trabalho de quem convoca, escala e treina costuma ser julgado pelo resultado do último jogo), escapou à sanha dos críticos. Zagallo sofreu mais que outros por dois motivos. Primeiro, por ter assumido num momento conturbado da vida brasileira, futebol e política mais entrelaçados que nunca, quando até mesmo a escolha de um técnico – Saldanha ou Zagallo? – tinha alguma coisa de politicamente suspeito. Segundo, por ter estado muito mais exposto que qualquer outro: 133 vezes dirigindo a seleção brasileira, recorde quase impossível de se chegar perto.

Quanto a mim, como disse, bem que tentei. Depois daquele “Mas logo agora?” que Antônio Maria Filho me transmitiu em fins de 1985, apressei-me em esclarecer a Zagallo, e a quem interessar pudesse, que o editor do Jornal do Brasil o trataria com a justiça, a elegância e a civilidade que eventualmente tivessem faltado anos antes. Convidei-o para um almoço. Em parte como testemunhas, em parte para transformar em matéria o que ele contasse sobre seus planos para a seleção, dois repórteres me acompanharam: Cláudio Arreguy e o mesmo Antônio Maria Filho. Não sei se Zagallo acreditou na sinceridade do velho crítico que lhe abria o coração. Passados tantos anos, espero que sim.

(Em tempo: um golpe meio maroto nas eleições da CBF deu a Otávio Pinto Guimarães a presidência que seria de Medrado Dias. Conclusão: Zagallo perdeu a vez para Telê, seu adversário naquele, para mim, memorável Fla-Flu de juvenis).


Jornalista, historiador do samba e do futebol, João Máximo nasceu em Nova Friburgo, Rio de Janeiro, mas é carioca de mente e coração. Atualmente, é o morador com mais tempo de casa na Vila de Noel: 68 anos de Ponto de 100 Réis e cercanias. Trabalhou na ou para praticamente toda a grande imprensa do Rio e de São Paulo. Prêmio Esso de Jornalismo em 1967 com matéria sobre futebol. Roteirizou e apresentou programas de rádio e TV. Em 1993, ganhou o prêmio da APCA para melhor programa musical da rádio paulista com Vinicius, Música, Poesia e Paixão, série de 32 programas de uma hora cada, transmitida pela Rádio Cultura de São Paulo. Tem 15 livros publicados, cincos deles sobre futebol e cinco sobre música. Com Marcos de Castro, escreveu Gigantes do Futebol Brasileiro, cuja nova edição, revista e aumentada, sairá ainda este ano; com Roberto Porto e Salomão Scliar, História Ilustrada do Futebol Brasileiro, em quatro volumes: sozinho, João Saldanha, Sobre Nuvens de Fantasia, Maracanã: Meio Século de Paixão e Brasil, Arte e Magia - Um Século de Futebol. Sobre música, entre outros, com Carlos Didier, Noel Rosa - Uma Biografia, e sozinho, Paulinho da Viola, Sambista e Chorão e A Música do Cinema: os 100 Primeiros Anos, em dois volumes.



 
O choro incontido após o título no estádio Rasunda, acompanhado pelo “Marechal da Vitória”, Paulo Machado de Carvalho.

Zagalo marca contra a Suécia, na final de 1958

Zagallo e Pelé, em 1998, durante a inauguração de uma exposição em homenagem aos 50 anos da conquista da primeira Copa do Mundo pelo Brasil.

Zagallo treina no Pacaembu, em 1961.

Ao lado de Ronaldo, em 1997, durante as Eliminatórias da Copa da França.

Em 1958, com os companheiros de Botafogo Didi, Paulinho Valentim e Quarentinha.

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