jogos inesquecÍveis :: 1999 :: bayern vs. manchester united

Em maio de 1999, o escocês Alex Ferguson, aliás, Sir Alex Ferguson, comemorava 13 anos no comando do Manchester United. Já era considerado um colosso! Pois ele continua à frente do time de Old Trafford e ganhou todos os títulos possíveis com duas gerações de craques. Mas uma vitória em particular, naquele ano de graça para os ingleses, faz marejar os olhos deste técnico de 68 anos, acostumado aos caprichos da bola.

O palco era o estádio do Barcelona, o Camp Nou, um dos mais famosos da Europa. A partida, válida pelo título da UEFA Champions League.

O adversário, os alemães de tantas e tantas batalhas célebres em campos não tão verdes quanto o do excelente gramado catalão.

Para piorar a situação, o Manchester não sabia o que era vencer o principal torneio do continente desde 1968, quando batera o Benfica de Eusébio, Coluna e Simões em Wembley, num jogo cujo principal nome foi Bob Charlton, autor de dois gols. Pela primeira vez um clube inglês alcançava o Olimpo da Europa. Os 4 a 1 sobre os portugueses são, ainda hoje, um dos resultados mais espetaculares de uma final de Liga dos Campeões.

Ou seja, já estava mais do que na hora de os Red Devils reviverem as glórias de um passado mais que centenário e sempre glorioso. Por isso, os milhares de ingleses nas arquibancadas do Camp Nou ensaiaram uma vaia quando os alto-falantes anunciaram que o veterano Teddy Sheringham, artilheiro com faro de gol, ficaria no banco. Em seu lugar, Ferguson escalou o sueco Blomqvist, um meio-campista de algum talento mas pouco nome.

Também o norueguês Ole Solskjaer, atacante de 26 anos e ídolo da torcida, assistiria, angustiado, a parte considerável da partida. O treinador pressentia o perigo de enfrentar uma equipe com forte marcação, orquestrada por Lothar Matthäus, que naquela noite fria faria as vezes de líbero do Bayern. A defesa alemã, com o grandalhão Linke e o ganense Kuffour, aparava as poucas bolas que passavam pela dupla Tarnat e Jeremies, postada na intermediária e que municiava os avanços de Effenberg. Dali para o trombador Jancker ou Mario Basler era um passo, ou melhor, um passe.

O problema é que não houve tempo nem para que o Manchester tentasse colocar em campo seu padrão de jogo. Famoso pelas escapadas rápidas de Ryan Giggs e Nicky Butt, pelos passes perfeitos de David Beckham e pela chegada na cara do gol, sempre incisiva, de Andy Cole e Dwight Yorke, o time de Ferguson tomou o gol logo aos 6 minutos. Numa cobrança de falta próxima da meia-lua da grande área, Mario Basler acertou o canto esquerdo do dinamarquês Peter Schmeichel, que dera um passo à direita bem na hora do chute. O 1 a 0 abalou os ingleses, que passaram a errar passes e permitir o avanço dos panzers germânicos. O império britânico estava em sérios apuros. Capitão do time, Schmeichel operou dois milagres pouco antes do final do primeiro tempo. Quando o italiano Pierluigi Colina apitou half-time, as câmeras de televisão que ficam no caminho para os vestiários flagraram mais que semblantes de espanto e agonia. Captaram, isso sim, a sensação de uma derrota iminente.

Os ingleses voltaram para a segunda etapa sem alterações; os alemães tampouco. Para manter a pressão no meio-de-campo, o treinador do Bayern, Ottmar Hitzfeld, reposicionou o lateral esquerdo Babbel ainda mais à frente, bem próximo de Basler, o que obrigaria um apagado Blomqvist a renunciar definitivamente ao ataque.

A tática alemã durou intermináveis 22 minutos de sufoco. Foi o tempo que Alex Ferguson precisou para descobrir aonde estava o problema da marcação do Manchester. Com a saída de Blomqvist e a entrada de Sheringham (que levou a torcida ao delírio), O lateral esquerdo Irwin se deslocou mais para o meio e passou a tabelar com um Giggs improvisado de armador. A saída era inverter o jogo sempre que possível em busca do outro lateral, Gary Neville. Mais alguns sustos depois, e a partida se equilibrava. Completando a mudança, Solskjaer entrou, aos 36 minutos, no lugar de Cole. Agora era atacar, sem medo, sem olhar para trás, e arriscar tudo em busca do empate que levaria para a prorrogação.

Aos 40 minutos, num erro de marcação da defesa inglesa, Jancker acertou o travessão de Schmeichel numa quase bicicleta. Era a senha que Beckham e seus companheiros esperavam: a sorte havia mudado de lado. Acuado pelos avanços de Giggs e pela forte presença do norueguês Solskjaer entre a zaga, o Bayern tentava segurar a vantagem. O que aconteceu, então, já faz parte da antologia do futebol mundial.

Assim que o quarto árbitro Fiorenzo Treossi subiu a placa indicando 3 minutos de acréscimos, um escanteio batido por Beckham levou pânico à defesa alemã. Tarnat tentou cortar e errou o chute; a bola caiu nos pés do galês Giggs. Ele pegou de primeira, mas torto; no meio do caminho, na linha da pequena área, à frente de Oliver Kahn, surgiu Sheringham, que só desviou para o fundo da rede. Era o empate, aos 46 minutos!

A euforia tomou conta da torcida e de todo o banco de reservas. Mais feliz somente Ferguson, na verdade aliviado por descobrir-se ainda “vivo” para entrar para a história do clube. Porém, ninguém poderia imaginar o que os deuses do futebol haviam planejado para aquele novo Dia de São Crispiniano, em que o cansaço da tropa só não é maior do que a determinação de um grupo de homens dispostos a se tornarem lendas.

No último lance da partida, um lançamento de 50 metros de Neville encontra Solskjaer na ponta esquerda. Ele duela com Kuffour e consegue um novo escanteio. Beckham cobra mais uma vez, só que, agora, no primeiro pau. Sheringham, sempre ele, desvia de cabeça, e o norueguês, quase debaixo das traves, aniquila o Bayern. O rosto vermelho de emoção de Ferguson é o contraponto ao abatimento de Hitzfeld, que parece não acreditar no que acaba de acontecer. Kuffour e Babbel estão caídos no gramado. O expressão inconsolável de Matthäus, que deixara o gramado aos 35 minutos, vale um quadro de outro norueguês, Edvard Munch.

Para surpresa de muitos locutores e comentaristas, o “Man of the Match” da batalha de Barcelona foi o alemão Mario Basler, eleito pela UEFA momentos antes de a partida mudar de mãos, ou melhor, de pés. Nada que alterasse o ânimo dos ingleses... Convenhamos, até os paralelepípedos que cercam o Camp Nou sabem que, naquele 26 de maio de 1999, o homem do jogo havia sido ele, Sir Alex Ferguson, aliás, como os principais diários ingleses estampariam no dia seguinte ao título, “King Fergie, pride of Britain”.

 
Segundo tempo:Ryan Giggs tenta passar por Oliver Kahn e Tarnat.

O capitão inglês, Peter Schmeichel, festeja com a taça a inacreditável vitória em Barcelona.

O lateral-direito Markus Babbel, do Bayern, desaba logo depois da derrota. No detalhe, Alex Ferguson e a Copa dos Campeões da Europa.



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