Dos 210 gols que o Basil fez em todas as Copas (sem contar 10 em decisões por pênaltis), ele marcou o primeiro.
João foi o único dos 14 filhos do escritor Coelho Neto a conhecer fama quase comparável à do pai. Muita gente podia não saber do parentesco, mas todo mundo conhecia Preguinho, celebrado no Rio de Janeiro e adorado pela torcida do Fluminense. Afinal, era dono de 387 medalhas (a maioria de ouro) e 55 títulos em nove modalidades: basquete, natação, pólo aquático, hóquei sobre patins, saltos ornamentais, remo, vôlei, atletismo e, claro, futebol. Um talento que hoje faria dele um milionário, mas pelo qual jamais concordou em receber um tostão. Apesar de dirigente e historiador do clube e de ter matriculado o menino como sócio (número 20) do tricolor, Coelho Neto não queria ver ninguém da família vivendo do esporte, que na opinião dele só tinha sentido e grandeza se fosse amador.
Desde o dia em que o pai jogou o menino dentro da piscina (método pedagógico do começo do século 20) e ele “afundou feito um prego”, ganhou o apelido e desenvolveu duas paixões -- pelo Fluminense (único clube que defendeu) e pela competição. Jamais confessou com todas as letras a preferência pelo futebol. Suas atitudes, no entanto, deixam isso claro desde o começo. Em 19 de abril de 1925, depois de nadar 600m e ajudar o tricolor a ser tricampeão estadual de natação, pegou um táxi e, ainda com a medalha no peito, correu para jogar contra o São Cristóvão e ganhar o Torneio Início; era sua estréia no futebol, aos 20 anos. Não fez gols nesse dia, mas já dava para perceber no toque de bola e nos chutes colocados o atacante atrevido que seria cinco vezes artilheiro do Fluminense (de 1928 a 32) e duas vezes do Campeonato Carioca (em 1930 e 32).
Preguinho faria 187 gols em 13 anos de carreira, 184 deles pelo time do coração. Para a história, o mais importante aconteceu em 14 de julho de 1930: o primeiro da Seleção Brasileira em uma Copa do Mundo (jogo que perdemos da Iugoslávia por 2x1). Para ele, porém, o realmente inesquecível foi marcado cinco meses depois, em 7 de dezembro, quando venceu o Campeonato Carioca: recebeu a bola na intermediária e encobriu espetacularmente o goleiro do Botafogo, jogada parecida com a que Pelé tentou e não conseguiu fazer na Copa de 70 em cima da Tchecoslováquia. Também se orgulhava muito dos dois gols de um Fla-Flu em 1928. Nesse caso, aliou talento com garra e raiva. Na véspera do clássico, recebeu do goleiro Amado um telegrama provocador: “Amanhã será canja. Não farás nenhum gol”. Pois aos 2 minutos do primeiro tempo “matou” o atrevido com um chutaço de longa distância. Depois humilhou, tocando de calcanhar para o fundo da rede uma bola que Amado não tinha conseguido defender. Final: Fluminense 4, Flamengo 1.
Um busto na sede das Laranjeiras e o ginásio batizado com seu nome relembram aos torcedores de hoje o super-craque que dizia já ter o Fluminense inteiro na alma, no coração e no corpo antes mesmo de saber falar direito. Era tanta paixão que até morava no mesmo bairro. Foi lá, no apartamento onde guardava medalhas e troféus, que sua mulher, dona Linda, o encontrou na madrugada de 30 de setembro de 1979, sentado na sala, olhos fixos no que considerava o maior tributo de sua vida, o diploma de Grande Benemérito Atleta, recebido em 1952. Era uma despedida. No dia seguinte, morria aos 74 anos João Coelho Neto, o maior dos tricolores e o pai de todos os nossos artilheiros nos mundiais.
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| A foto é de 14 de julho de 1930. Ao centro vemos o árbitro uruguaio Anibal Tejeda, elegantíssimo. À direita, o zagueiro (e capitão) iugoslavo Ivkovic; à esquerda, João Coelho Neto, o Preguinho, capitão brasileiro. O jogo, que aconteceu no estádio Parque Central, em Montevidéu, terminou com a vitória dos europeus por 2 a 1 e marcou o início da participação nacional em Copas do Mundo. Foi dele, Preguinho, o primeiro gol da Seleção Brasileira em Mundiais. |
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